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Histórias dos servidores - Raquel e seu fiel (e devoto) escudeiro Valter: amor com muito amor se paga

14 de Agosto de 2019 19:47:58


Valter e a turma do fórum de São Gonçalo do SapucaíTrabalho no fórum de São Gonçalo do Sapucaí como Oficial de Apoio Judicial há aproximadamente 11 anos. Eu e alguns colegas do fórum sempre cuidamos de cães de rua que aparecem no centro da cidade, onde fica o fórum, deixando água e comida e, nos tempos de frio, colocando caixas de papelão e panos para abrigá-los.

Até que um dia, há cerca de 4 anos, fui surpreendida pela visita de um cachorrinho muito magro, debilitado e com o corpo tomado por sarna. Ele não tinha nenhum pelo e sua pele parecia uma pedra. Muitas pessoas o enxotavam, com medo de pegarem sarna. Mesmo assim, eu consegui alimentá-lo.

Mas, diferentemente de outros cães que passavam por lá, que recebiam comida e depois não apareciam mais, esse cachorrinho não só voltou no dia seguinte, como passou a frequentar a entrada do fórum todos os dias. Apesar de visivelmente doente, ele estava sempre alegre e pulava em todos os que passavam, querendo brincar. E, assim, fomos nos afeiçoando a ele.

E, como um verdadeiro vigilante, o cãozinho ficava em frente ao fórum do início ao fim do dia, só indo embora depois que o expediente era encerrado e o prédio fechado.

Como eu morava praticamente ao lado do fórum, comecei a chamar o bichinho para dormir em frente ao meu prédio. Comprei uma casinha para ele e a instalei ao lado do estacionamento do edifício, onde também sempre deixava água e ração. Em seguida, decidi levá-lo a um veterinário local, que, além de dar vacina, vermifugar e administrar remédios contra pulgas e carrapatos, prescreveu vitaminas e um medicamento contra a sarna. O tratamento demorou a surtir efeito, mas, aos poucos, seus pelos voltaram a crescer e ele foi ganhando peso.

Deram a ele o nome de “Pug”, mas ele não atendia por esse novo nome. Até que resolvi chamá-lo de “Valter”. Mais do que depressa, ele abanou o rabo, feliz da vida, como se respondesse: “Taí, gostei. Meu nome é Valter”.  

Nessa época, Valter ficou conhecido em São Gonçalo do Sapucaí como sendo o cachorro que nunca faltou a nenhum velório. Como a igreja matriz anuncia todos os falecimentos ocorridos na cidade, Valter aprendeu a reconhecer a música que acompanha esses avisos. Assim que escuta, ele corre para o velório, acompanha o corpo até à igreja e, depois, escolta o carro funerário até o cemitério. Muito devoto, Valter também nunca faltou a nenhuma missa da igreja católica.  

Um dia, chovia muito e fazia um frio rigoroso na cidade. Contrariando as regras do prédio em que eu morava, que proibia terminantemente a entrada de animais, decidi levar Valter para dormir em meu apartamento. Acordei de madrugada e, para meu espanto, vi que o apartamento estava todo sujo de sangue. Foi aí que me dei conta de que o estado de saúde dele era bem pior do que eu imaginava. Voltei com ele ao veterinário e Valter foi diagnosticado com a doença do carrapato. Por pouco ele não morreu.

Como o cãozinho precisou tomar antibióticos em horários certos, acabei tendo que mantê-lo em meu apartamento para que o tratamento fosse feito corretamente. Depois disso, rescindi meu contrato de aluguel e hoje moro em um apartamento onde, não só posso ter bichos, como oferece muito espaço para que eles sejam felizes.

Desde então, nunca mais nos separamos. Valter me acompanha pela cidade, aonde quer que eu vá. Ao meio-dia, ele me leva até o fórum e, às 18h em ponto, ele aparece para me buscar. Nunca falhou nem um dia. Ele é tão infalível em seus compromissos, que, certa vez em que um velório acontecia no final da tarde, às 18h ele saiu do velório, foi me buscar no fórum, me deixou em casa e depois voltou para o velório.

A doença do carrapato deixou sequelas e Valter acabou por adquirir uma doença renal crônica, que o deixa apático e sem fome. De tempos em tempos, para aliviar suas dores, ele precisa ser internado em uma clínica veterinária em Varginha (distante pouco mais de 60 quilômetros de São Gonçalo), para ser submetido a um tratamento chamado soroterapia.

Apesar de tudo isso, ele, que já é um cachorro idoso, com cerca de 12 anos de idade, tem hoje uma vida confortável e muito feliz.

Passados quatro anos desde que nos conhecemos, Valter e eu dormimos juntos, acordamos juntos; ele vai comigo a lojas, bares, restaurantes, festas, supermercados e até nas confraternizações de trabalho! Valter, aliás, é conhecido de todos os meus colegas do fórum, que fazem questão de cumprimentá-lo diariamente.

Até hoje, não sabemos se ele cresceu nas ruas ou se foi abandonado por alguém. Há pessoas na cidade que dizem que Valter foi tocado para fora de casa depois que seu antigo dono morreu. Seja o que tiver acontecido, o que eu tenho certeza é de que, mesmo após ter passado por tanto sofrimento e tanta negligência, Valter jamais perdeu a capacidade de confiar e de amar incondicionalmente. Em todos os dias desses quatro anos em que estamos juntos, não houve um só momento, nem um segundo, em que cada lambida, cada aproximação, cada olhar de Valter não estivesse sempre carregado de muito amor e, sobretudo, de muita, muita gratidão.

Raquel Moreira Reis, Oficial de Apoio Judicial da comarca de São Gonçalo do Sapucaí

 

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